Nota editorial: publicada originalmente em 2020 e atualizada em setembro de 2026. A versão original deste texto reproduzia material de divulgação de uma plataforma de relacionamentos, com números internos que não puderam ser verificados. Foi reescrita para tratar o tema de forma independente.
Relacionamento sugar é o nome que se dá a um arranjo entre adultos em que uma das partes, geralmente mais velha e com mais dinheiro, oferece apoio financeiro, presentes ou acesso a um certo estilo de vida, e a outra oferece companhia. O termo circula há anos em sites e aplicativos criados especificamente para promover esses encontros.
O discurso das plataformas
As empresas do setor costumam apresentar o arranjo como uma relação de benefício mútuo, com expectativas combinadas desde o início. É também comum que divulguem estatísticas próprias sobre idade, escolaridade ou renda de seus usuários. Esses dados vêm das próprias plataformas, que têm interesse comercial em apresentá-los de forma favorável, e raramente passam por verificação independente. Convém lê-los como publicidade.
Algumas das ideias que essas empresas dizem desfazer são, de fato, simplificações: há mulheres no papel de quem sustenta, há arranjos entre pessoas do mesmo sexo e os perfis são variados. Isso não diz muito sobre o essencial.
O que merece atenção
O ponto central é a assimetria. Quando uma das partes controla o dinheiro, a negociação nunca é inteiramente equilibrada, e a fronteira entre um acordo livre e uma relação de dependência pode ser tênue. É nessa zona cinzenta que mora o risco: expectativas de intimidade nem sempre são ditas com clareza, e a pressão econômica pesa sobre quem recebe.
Nenhuma plataforma pode garantir que não haja abusos. Há riscos conhecidos em qualquer ambiente de encontros online, como golpes financeiros, perfis falsos, exposição de imagens e dados pessoais e situações de coerção. A promessa de que todos sabem exatamente o que esperar não substitui cautela.
O que diz a lei
No Brasil, uma relação entre adultos que consentem não é crime. A lei penal, porém, pune a exploração sexual e quem tira proveito da prostituição alheia, e trata com rigor qualquer situação que envolva menores de 18 anos, independentemente de consentimento ou da forma como o arranjo é descrito. Quem se sente pressionado, ameaçado ou explorado pode buscar a polícia, a Defensoria Pública, o Ligue 180, voltado a mulheres em situação de violência, ou o Disque 100.
Com os pés no chão
Quem pensa em entrar num arranjo desse tipo deve fazer o que faria em qualquer relação com dinheiro envolvido: proteger dados pessoais, desconfiar de pedidos de pagamento antecipado, manter independência financeira sempre que possível e não aceitar condições que não foram combinadas.
O vocabulário é leve, quase doce. A realidade pede outra coisa: clareza, cautela e a lembrança de que nenhuma promessa de marketing substitui o direito de dizer não.
Redação WAYFARER
