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Guia Michelin estende sistema de estrelas ao vinho e gera controvérsia em Bordeaux

Depois de mais de um século classificando restaurantes com estrelas e, mais recentemente, hotéis com chaves, o Guia Michelin decidiu aplicar sua régua de prestígio a um novo território: as vinícolas. A novidade, que já havia passado por um teste em Borgonha em julho, chegou a Bordeaux em 7 de setembro, com uma cerimônia na Cité du Vin que distribuiu reconhecimento a 84 propriedades. O resultado, longe de gerar consenso, provocou uma onda de reações cautelosas nos bastidores do comércio de vinho e uma enxurrada de críticas nas redes sociais.

“Sinceramente, as pessoas não estão dizendo nada”, observa Robin Kelley O’Connor, educador internacional especializado em Bordeaux e uma referência no circuito de vinho fino em Nova York, ao ser questionado sobre as notas. “Estou até o pescoço no comércio de vinhos, participo de pelo menos uma, senão duas, três ou quatro degustações de importadores por dia nesta época do ano. Não ouvi um único comentário.” O silêncio nas mesas de prova, porém, contrasta com o volume nas redes. Em uma publicação que reunia opiniões de profissionais do setor, Adam Lee, proprietário e enólogo da californiana Clarice Wine Company e colunista do North Bay Business Journal, resumiu seu desabafo assim: “É risível e deveria ser motivo de zombaria e desprezo.”

O sistema funciona em escala de uvas em vez de estrelas: uma denota um produtor muito bom, duas um produtor excelente, três um produtor excepcional. Dos mais de 7 mil châteaus produtores da região, 21 receberam menção sem chegar a ganhar uma uva, 38 foram premiados com uma, 16 com duas e apenas nove alcançaram a distinção máxima de três. O próprio guia reconhece, em seu site, que a seleção “cobre a maioria das apelações mais icônicas da região”, o que exclui automaticamente boa parte dos châteaus que produzem rótulos sólidos fora dos circuitos mais celebrados, como Bordeaux AOC, Bordeaux Supérieur, Cru Bourgeois Supérieur ou Entre-Deux-Mers. Entram na lista comunas da Margem Esquerda como Saint-Estèphe, Pauillac, Saint-Julien, Margaux e Pessac-Léognan, os pilares da Margem Direita Pomerol e Saint-Émilion, e as apelações de vinhos doces Sauternes e Barsac.

Vinhedo bordalês sob luz de fim de tarde durante a colheita
A avaliação da Michelin cobriu as apelações mais celebradas de Bordeaux, deixando de fora boa parte da produção regional.

Foram as omissões individuais e as classificações abaixo do esperado que acenderam o debate nos comentários. Enquanto casas como Château d’Yquem, Château Cheval Blanc e Petrus celebram a distinção máxima de três uvas, comentários espalhados por Facebook, Instagram, Threads e X apontam como um tapa na cara o fato de Château Margaux, Château Angelus e Château Haut-Brion terem recebido apenas duas, e Château Cos-d’Estournel e Château Lynch-Bages, apenas uma. “E o que dizer de uma única uva para o Château Le Pin, na Margem Direita?”, questiona O’Connor. “O Le Pin custa cerca de 4.100 dólares no lançamento e é um dos vinhos mais cobiçados do mundo, avaliado consistentemente entre 97 e 100 pontos. Que amador avaliou esses vinhos?”

A metodologia usa cinco critérios: qualidade agronômica, domínio técnico, identidade, equilíbrio e consistência. A Michelin recrutou uma equipe de inspetores vinda das fileiras do próprio mundo do vinho, entre ex-sommeliers, críticos e enólogos. Diferentemente dos avaliadores de restaurantes, que trabalham de forma anônima e disfarçada, os especialistas em vinícolas precisaram agendar visitas a cada propriedade para provar diferentes safras e inspecionar vinhedos e instalações. Isso não impediu as críticas. Lee cita as duas uvas de Château Margaux como exemplo ao questionar: “Devemos acreditar que os inspetores da Michelin examinaram aquela extensão de terra de forma exaustiva e repetida, em diferentes estações e safras, com conhecimento suficiente para avaliar a vitalidade do solo e o equilíbrio do vinhedo?” Ele lembra a complexidade de avaliar um vinhedo e o tempo necessário para entender as diferenças entre parcelas: “Avaliar de forma significativa esses fatores na vasta área vinícola de Bordeaux exigiria acesso, tempo e conhecimento especializado enormes. A Michelin não explicou adequadamente como seus inspetores conseguem isso.”

“A falta de transparência vai se tornar um problema cada vez maior com o tempo, e já é grave hoje”, afirma Jeff Leve, editor da publicação The Wine Cellar Insider, que consultou seguidores e colegas em várias plataformas e relata que “os resultados foram extremamente negativos”. Leve também questiona o fato de o guia avaliar as propriedades, e não safras ou cuvées específicas: “Todo vinho vem de um terroir específico, que não pode ser reproduzido em outro lugar. As condições climáticas do ano, as escolhas no vinhedo e na adega nunca serão as mesmas de uma safra para outra”, diz. “Os vinhos mudam a cada ano. Pode ser interessante para alguns consumidores conhecer uma propriedade, mas isso não é exatamente relevante para o que está na garrafa e na taça.”

Nem todas as reações foram negativas. Muitas vinícolas, mesmo as premiadas com três uvas, preferiram não comentar, citando a sensibilidade da relação com a Michelin ou, nos casos de classificação considerada injusta, a opção de “deixar o reconhecimento falar por si”. Outras comemoraram abertamente: o Château Troplong Mondot, de Saint-Émilion, classificado Premier Grand Cru Classé B, divulgou nota celebrando sua marca de duas uvas. E, diante do momento delicado do setor, há quem enxergue qualquer holofote como bem-vindo.

“É uma grande oportunidade, num momento tão desafiador quanto o que o mundo do vinho enfrenta hoje, ter um nome tão prestigiado quanto a Michelin se interessando pelo setor”, avalia Guillaume Jourdan, diretor-geral da consultoria parisiense de estratégia de marca VitaBella. “Foi assim em meados dos anos 1980, quando Robert Parker virou a classificação de 1855 de cabeça para baixo. E vimos no que deu.” Uma uva está longe de equivaler a cem pontos, mas se a atenção sobre alguns dos melhores vinhedos de Bordeaux resultar em mais garrafas vendidas, toda a discussão nas redes dificilmente vai ofuscar o brilho da mais nova iniciativa da Michelin.

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