Portofino recebe até dez mil visitantes por dia na alta temporada, um número que basta para transformar suas ruelas estreitas em corredores de turistas. Mas a poucos minutos dali, a costa liguriana guarda três vilarejos que preservam o ritmo antigo da dolce vita: San Michele di Pagana, Paraggi e San Fruttuoso. Cada um oferece uma versão distinta do litoral, sem o excesso que consagrou o vizinho mais famoso.

SAN MICHELE DI PAGANA
A pouca distância de Rapallo e Santa Margherita Ligure, San Michele di Pagana parece pertencer a outra época. Com cerca de mil habitantes, o vilarejo mantém um caráter quase secreto, mesmo com suas praias públicas movimentadas no verão, frequentadas majoritariamente por moradores da região. O cenário marítimo é o principal atrativo, mas há também uma obra de peso para quem aprecia arte: A Crucificação, tela do século XVII de Anthony van Dyck, na Chiesa di San Michele Arcangelo.

É a Liguria em sua forma mais essencial: casas de pescadores em tons variados alinhadas à costa, três baías tranquilas (Prelo, Trelo e Pomaro) e trechos de areia e pedra que se alternam ao longo do litoral. Há também clubes de praia privados; um deles, inaugurado neste verão, é o Bagni San Michele, operado pelo grupo de hospitalidade ö Magasín, que já mantém restaurantes na região de Portofino.

Antonio Bertullo, coproprietário da ö Magasín junto a Simona e Emilia Mussini, explica a escolha do local: “Acreditamos que San Michele di Pagana é uma das áreas com maior potencial de longo prazo na costa de Portofino. Tem um caráter mais discreto e autêntico, com espaço para crescer sem perder identidade.” O novo clube reúne restaurante de decoração branca e moderna, cardápio de cozinha liguriana leve e aperitivos pensados para o fim de tarde. San Michele não tem hotel de grande porte, mas o cinco estrelas Excelsior Palace Portofino Coast, erguido sobre o promontório que leva a Rapallo, fica a uma curta caminhada.
PARAGGI
Paraggi é conhecida por sua enseada de areia, exceção em uma costa dominada por pedras, ainda que belas. Como muitos vilarejos litorâneos, começou como povoado de pescadores até que, no início do século XX, industriais italianos e europeus passaram a comprar propriedades históricas na região para passar o verão. Depois da Segunda Guerra, o vilarejo se tornou parada obrigatória para celebridades de Hollywood, entre elas Elizabeth Taylor e Richard Burton, que frequentavam a vizinha Portofino, a pouco mais de um quilômetro de distância.

Fração administrativa de Santa Margherita Ligure, com apenas doze moradores fixos, Paraggi é lembrada por clubes de praia históricos como o Bagno Fiore, aberto em 1927. Hoje sob gestão da Belmond, subsidiária de luxo do grupo LVMH, o clube oferece traslado para hóspedes dos hotéis Splendido e Splendido Mare, em Portofino. O restaurante do espaço, Langousteria Paraggi, é reconhecido pela vista frontal ao mar e pela cozinha de frutos do mar refinada. A decoração é assinada em parceria com a Dior, outra grife do grupo LVMH: o padrão Toile de Jouy cobre guarda-sóis e espreguiçadeiras, e há uma loja conceito da marca no local.

Outro clube histórico, o Le Carillon, fundado em 1937, apresenta parceria com a Dolce & Gabbana: o estampado Verde Maiolica cobre espreguiçadeiras, guarda-sóis, toalhas e até boias flutuantes. Às sextas e sábados à noite, o espaço, ponto de encontro de celebridades há décadas, se transforma em pista de dança.

Bagni Bosetti, de 1925, é outro clássico local. Seu restaurante, o ö Magazín In Spiaggia, também operado pelo grupo responsável pelo Bagni San Michele, aposta em pratos ligurianos e pescados frescos. Segundo Bertullo, esse endereço se diferencia por ter “uma atmosfera mais voltada ao destino, com forte componente social. Em vez de replicar o mesmo conceito, quisemos que cada lugar expressasse sua própria personalidade.” O restaurante funciona do café da manhã ao aperitivo noturno. O Eight Hotel Paraggi, boutique de doze quartos instalado em uma villa do século XIX, é a única hospedagem cinco estrelas do vilarejo e conta com área de praia privada.
SAN FRUTTUOSO
Acessível apenas por barco ou trilha, o pequeno vilarejo de San Fruttuoso, na península de Portofino, reúne relevância cultural e paisagem de praia em um só lugar. A Abbazia di San Fruttuoso, complexo monástico do século X que pertenceu por gerações à família genovesa Doria, domina a enseada. A propriedade foi doada ao FAI, fundo italiano de preservação, por Frank e Orietta Doria Pamphilj em 1983.

Movimentado durante o dia no verão, com balsas frequentes partindo de Camogli, Rapallo e Sestri Levante, San Fruttuoso se transforma em refúgio isolado ao anoitecer, quando a população residente, inferior a quarenta pessoas, reassume o vilarejo. Não há hotéis no local, mas quem quiser permanecer até a noite pode reservar a Casa de Mar, uma casa de pescador restaurada em dois pavimentos, com vista para o mar, terraço e jardim pequeno, que acomoda até três pessoas. O imóvel é administrado pelo FAI (Fondo Ambiente Italiano), organização dedicada à preservação do patrimônio natural e cultural italiano, e reservado por meio do Landmark Trust, entidade britânica voltada à conservação de propriedades históricas.
Entre a formalidade de uma abadia milenar, o glamour discreto dos clubes de praia e a simplicidade das casas de pescadores, esses três vilarejos compõem um roteiro paralelo à rota mais óbvia de Portofino, sem abrir mão do refinamento que definiu a fama da região.


