Há anos os museus deixaram de tratar a moda como nota de rodapé da história cultural. Em 2026, instituições públicas e privadas, da Itália a Nova York, dedicam salas inteiras a decifrar o vestuário como espelho de sociedade, técnica e imaginário coletivo. O calendário que se desenha para o ano reúne fotografia, artesanato, cinema e alta costura em um mesmo repertório curatorial, com nomes que vão de Franco Moschino a Madame Grès, do Met Costume Institute ao MoMu de Antuérpia.
Franco Moschino, Ceci n’est pas une exposition, Forte di Bard
De 31 de outubro de 2026 a 14 de fevereiro de 2027, o Forte di Bard, no Valle d’Aosta, recebe a mostra que reconstrói a trajetória de um dos designers italianos mais estimados de sua geração. Com curadoria de Pier Paolo Pitacco, em colaboração com Catia Zucchetti e contribuição de Giuseppe Mastromatteo, a exposição reúne mais de 200 fotografias, peças icônicas e material de arquivo nas salas das Cantine. Uma galeria fotográfica de quarenta metros conduz o visitante por seis ambientes temáticos, iluminados por instalações neon, onde imagens de Stefano Babic, Sergio Caminata e Stefano Pandini dialogam com vitrines históricas da maison e roupas vintage originais. Depoimentos em vídeo de amigos e colaboradores completam o retrato de um criador que, partindo de Abbiategrasso, transformou a passarela em palco de crítica social.


Italia Settanta, Palazzo Attems Petzenstein, Gorizia
De 27 de junho a 29 de novembro, o Palazzo Attems Petzenstein prossegue o ciclo iniciado com os anos 1950 e 1960, agora dedicado à década que reformulou o sistema da moda italiana. Prêt-à-porter, ascensão de Milão como capital do setor e experimentação radical no design se cruzam nas obras de Walter Albini, Missoni, Giorgio Armani, Roberto Capucci e Elio Fiorucci, ao lado das pesquisas de Michelangelo Pistoletto, Gino De Dominicis, Ettore Sottsass e Gae Aulenti. O percurso reconstitui como moda, arte e design passaram a se influenciar mutuamente naquele período.

La Mode en Majesté, Musée des Arts Décoratifs, Paris
Até 1º de novembro, o museu parisiense apresenta quase duzentas peças em La Mode en Majesté: Royal Thai Dress from Tradition to Modernity, com curadoria de Béatrice Quette e patrocínio da princesa Sirivannavari Nariratana Rajakanya. A mostra une a técnica francesa de bordado às tradições decorativas tailandesas, com destaque para a seção “Sirivannavari Embroidery and Contemporary Designer”, que expõe esboços originais da princesa, superfícies têxteis experimentais e três vestidos assinados por ela.





Rafael Pavarotti Photographe, Musée des Arts Décoratifs, Paris
De 23 de setembro de 2026 a 2 de maio de 2027, o museu dedica ao fotógrafo brasileiro Rafael Pavarotti sua primeira retrospectiva na França. Mais de 200 obras, entre retratos e capas de revista, reúnem imagens de Rihanna a Harry Styles, ao lado de campanhas para grandes maisons. A lente de Pavarotti, afro-indígena e nascido em 1993, propõe uma leitura da moda distante do convencional, atenta a corpos historicamente pouco representados.

Lancel, Toujours, Paris
Até 23 de dezembro, a boutique histórica da Lancel, na Place de l’Opéra, celebra os 150 anos da maison com um percurso imersivo que começa nos primórdios da grife, como fábrica de cachimbos na Belle Époque, e atravessa o ateliê original dos fundadores Angèle e Alphonse Lancel. Sem cronologia rígida, a mostra segue eixos temáticos, da bagagem à anatomia das bolsas, com destaque para a “150th Capsule Collection”, que reinterpreta em quinze versões a bolsa Premier Flirt.



The Burberry Trench: Crafting an Icon, V&A South Kensington, Londres
De 21 de setembro de 2026 a 3 de janeiro de 2027, a Prince Consort Gallery, raramente aberta ao público, recebe a mostra gratuita que celebra os 170 anos da Burberry através de seu símbolo mais reconhecível. Dividida em três seções (Invention, Craft e Creativity), a exposição parte da invenção da gabardine de algodão por Thomas Burberry, passa pelos detalhes artesanais do trench e chega a dezenove looks das passarelas dos últimos vinte e cinco anos, incluindo peças de Daniel Lee e Christopher Bailey. A parceria com o V&A se aprofundará em 2028, com a inauguração da Burberry Gallery permanente.

Regine in scena, Reggia di Venaria, Turim
Até 6 de setembro, o palácio nos arredores de Turim reúne 31 figurinos de cinema e teatro que retrataram realeza na tela grande, com curadoria do premiado Massimo Cantini Parrini. Entre as peças, o vestido usado por Monica Bellucci em Os Irmãos Grimm, o figurino de Michelle Pfeiffer em Sonho de Uma Noite de Verão e trajes de produções sobre Maria Callas e Cleópatra, organizados pelo Consorzio delle Residenze Reali Sabaude.



Ferdinando Sarmi New York, Palazzo Pitti, Florença
Até 31 de dezembro, o Museo della Moda e del Costume revisita o legado do couturier de Ravenna que vestiu estrelas como Audrey Hepburn, Marilyn Monroe e Marlene Dietrich. Formado em direito e oriundo da nobreza italiana, Sarmi foi convidado por Elizabeth Arden para Nova York em 1951, e fundou a própria marca em 1958, tornando-se referência da alta-costura americana entre as décadas de 1950 e 1970.

Moda in Luce 1955-1975, Musei Capitolini, Roma
De 26 de junho a 15 de novembro, a mostra organizada pelo Archivio Luce Cinecittà com curadoria de Fabiana Giacomotti explora a sinergia entre moda e cinema na Roma que se tornou “Hollywood sobre o Tibre”. O percurso reúne criações de Valentino Garavani, das Sorelle Fontana, de Gattinoni, Laura Biagiotti e Roberto Capucci, na sequência do capítulo dedicado a Florença entre 1925 e 1955.


Corpi di luce, Bulgari, Via Condotti, Roma
Até 4 de outubro, a loja histórica da Bulgari, inaugurada em 1905, transforma suas salas em espaço de arte contemporânea. Obras da Coleção Giuseppe Iannaccone e fotografias de Federica Belli se organizam em torno da luz como elemento comum, criando conexão visual entre pintura, imagem e o brilho das joias da maison.

Noblesse oblige, Cinecittà, Roma
A partir de 20 de fevereiro, os estúdios de Cinecittà dedicam uma mostra à elegância do século XVIII, com foco na moda masculina através de seis habit à la française usados por atores como Colin Firth, Steve Buscemi, Guillaume Canet e Tom Hulce. O destaque é o figurino de Donald Sutherland em Il Casanova, de Federico Fellini, criado por Danilo Donati, celebrado cinquenta anos após o lançamento do filme.

Exposure. Quando o mundo te olha, Museum of Art in Fashion, Trieste
Até 3 de janeiro de 2027, o primeiro museu dedicado à moda contemporânea na Itália apresenta uma mostra sobre o trabalho do stylist, com curadoria de Tom Eerebout, colaborador de Lady Gaga, Kylie Minogue, Rita Ora e Austin Butler. O percurso, com catálogo assinado também por Emanuele Coccia e colaboração de Olivier Saillard, revela o processo criativo por trás de looks de red carpet e passarela.




Costume Art, Met Costume Institute, Nova York
Até 10 de janeiro de 2027, as renovadas Condé M. Nast Galleries, com mais de 1.100 metros quadrados, recebem a mostra mais aguardada do calendário internacional. Sob curadoria de Andrew Bolton, o tema investiga o “corpo vestido” através de pinturas, esculturas e artefatos de até cinco mil anos, propondo recolocar a figura humana no centro da conversa sobre moda como forma de arte.

Many Shades of Grès, Museu das Artes Decorativas, Berlim
Até 11 de outubro, o museu berlinense apresenta pela primeira vez ao público alemão uma retrospectiva sobre Madame Grès, considerada uma das figuras mais visionárias da alta-costura do século XX. Silhuetas esculturais e plissados finos ilustram uma trajetória que começou nos anos 1930 e consolidou a maison até os anos 1960.


The Antwerp Six, MoMu, Antuérpia
De 28 de março de 2026 a janeiro de 2027, o Fashion Museum de Antuérpia celebra os quarenta anos do grupo formado por Walter Van Beirendonck, Dirk Bikkembergs, Ann Demeulemeester, Dries Van Noten, Marina Yee e Dirk Van Saene. O percurso revisita a formação na Royal Academy of Fine Arts, o debut na London Fashion Week nos anos 1980 e as trajetórias distintas que moldaram parte relevante da história da moda contemporânea.

Mostras encerradas que marcaram a temporada
Antes do calendário de 2026 se firmar, uma série de exposições já havia consolidado o diálogo entre moda, arte e memória. Em Milão, a instalação Tacchi su Tela, assinada por Hayley Axelrad com curadoria de Jemma Elliott-Israelson, levou pinturas a óleo inspiradas no universo Manolo Blahnik para dentro da boutique da marca.



Em Florença, Essere Cappiello celebrou os setenta anos da Accademia Cappiello, colocando em diálogo mais de cem trabalhos de estudantes com o acervo histórico de Leonetto Cappiello, sob curadoria de Stefano Mingaia.

Em Roma, a Fondazione Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti apresentou Venus, no espaço PM23, reinterpretando o legado do estilista, falecido em janeiro, sob a leitura da artista portuguesa Joana Vasconcelos, com curadoria de arquivo assinada por Pamela Golbin.

Em Milão, a Galleria de 10 Corso Como recebeu Viktor&Rolf. Spectrum, primeira mostra individual da dupla holandesa na Itália, reunindo vinte looks de alta-costura sob curadoria de Alessio de Navasques.

Em Nápoles, o Museo della Moda dedicou uma monográfica ao couturier Fausto Sarli, reunindo 22 peças das coleções Polinesia, Cerchio e Diva, sob curadoria de Paola Maddaluno.



No Labirinto della Masone, em Parma, Ertè. Lo stile è tutto reuniu mais de 150 trabalhos do artista do movimento Art Déco, com peças vindas do Victoria and Albert Museum, enquanto o próprio V&A, em Londres, apresentou Schiaparelli: Fashion Becomes Art, dedicada ao legado surrealista de Elsa Schiaparelli e à visão atual de Daniel Roseberry.

Entre retrospectivas de fundadores e leituras contemporâneas de arquivo, o calendário de 2026 confirma um movimento que já não é exceção: museus, boutiques históricas e concept stores compartilham o mesmo repertório curatorial, tratando a moda como registro cultural tão legítimo quanto qualquer outra forma de expressão artística.


