Há objetos que atravessam a vida cotidiana sem jamais serem notados como design. A ponte Autogrill é um deles: uma estrutura suspensa sobre a autoestrada, batizada com o nome da própria rede de restaurantes que a ocupa, tão presente na paisagem italiana que se tornou sinônimo genérico de parada de estrada. É esse objeto ordinário, e sua história improvável, que o arquiteto Carlo Ratti escolhe abrir em sua nova coluna de verão para a Wallpaper*, intitulada Objectify.
A cena que Ratti descreve é quase cinematográfica: dirigindo pela Autostrada del Sole, a rodovia que liga Milão a Nápoles, ele avista à distância uma silhueta ambígua, um caminhão atravessado, um outdoor descomunal, uma rã gigante suspensa no ar. A poucos metros, o mistério se resolve. É a ponte Autogrill, estrutura que cruza as duas pistas da estrada com um atalho que, em qualquer outro ponto da malha viária, seria proibido.
Poucos sabem que essa tipologia arquitetônica atraiu alguns dos maiores nomes da arquitetura e da engenharia da Itália do pós-guerra, de Angelo Bianchetti a Pier Luigi Nervi. Nos anos 1960, a autoestrada era um dos grandes palcos da Itália moderna, e a ponte Autogrill se transformou em sua galeria suspensa: um elo entre norte e sul, entre partida e retorno, entre as famílias em movimento durante as migrações de verão.

Enquanto a Itália observava com fascínio as autoestradas americanas, optou por não copiá-las. Criou algo distintamente próprio: elegante, urbano, com identidade autônoma. Um dos desenhos originais de Bianchetti retrata a ponte de Montepulciano, hoje demolida, com sua viga assimétrica em T de aço corten sustentando a estrutura envidraçada, aliviada em uma das extremidades por uma escada em balanço. Abaixo, o asfalto era tão liso que refletia o céu, percorrido por automóveis de silhuetas que remetiam ao Bisiluro de Carlo Mollino ou ao Dymaxion de Buckminster Fuller.

A verdadeira surpresa, segundo Ratti, está no andar superior. No salão de refeições, uma inversão quase newtoniana acontece: pelas janelas que se projetam sobre o tráfego abaixo, é o edifício que parece disparar para trás em velocidade, enquanto os carros permanecem imóveis. Uma sensação que hoje se tornou ainda mais rara, à medida que a falta de visão de longo prazo para as autoestradas italianas condenou várias dessas estruturas à demolição. A icônica ponte de Montepulciano caiu em 2021; a de Fiano Romano, perto de Roma, está fechada há anos e corre o mesmo risco. Outras aguardam apenas uma restauração cuidadosa que recupere sua elegância original.
Para Ratti, essas pontes mereceriam ser redescobertas como manifesto de um país que, em certo momento, teve confiança suficiente para olhar o futuro com leveza e imaginação, capaz de criar elegância onde menos se esperaria: acima de uma faixa de asfalto.
Sobre Objectify, a série de verão de Carlo Ratti
O cânone do design italiano já foi contado repetidas vezes: a cafeteira Bialetti, a Vespa, o Fiat 500, o abajur Arco. É a lista que qualquer livraria de aeroporto e qualquer estudante de design do primeiro ano conhece de cor. A coluna de Ratti se propõe a outro exercício: discutir, provocar, investigar e, por vezes, ironizar os objetos italianos menos glamorosos, aqueles que os próprios italianos cruzam diariamente sem perceber que, atrás deles, há um projetista de sobrenome melodioso.

Proust escreveu um romance de sete volumes porque um pequeno bolo mergulhado no chá, a madeleine, desencadeou um fluxo involuntário de memória. Para os leitores da versão italiana desta coluna, publicada semanalmente no Il Sole 24 Ore, talvez esses objetos produzam efeito semelhante. Para o público internacional, eles oferecem outra coisa: um repertório de conversas de praia, um olhar treinado para lugares inesperados e, quem sabe, algumas madeleines novas para a próxima visita à península.
Afinal, objetos nunca são apenas objetos. Como bem resumiu o designer milanês Achille Castiglioni, autor do abajur Arco: “os objetos deveriam nos fazer companhia”. Sobretudo neste verão escaldante.


