Paris se transforma sem pressa, mas sem pausa. A cidade guarda no subsolo os vestígios da fortaleza medieval de Filipe Augusto, sob o Louvre, e as ruínas do anfiteatro galo-romano escondidas entre os prédios do quinto arrondissement. Nesta temporada, a metamorfose mais notável acontece no Sena: depois de quase um século de proibição, trechos do rio voltaram a receber banhistas, e o Canal Saint-Martin ganhou multidões que mergulham até o pôr do sol.
Se as margens do rio se tornaram o símbolo do novo verão parisiense, os museus continuam sendo o refúgio mais sedutor da cidade. A programação artística de Paris está entre as mais densas do mundo, cruzando os clássicos da tradição com uma cena contemporânea de repertório afiado. Nesta estação, várias mostras convertem o visitante em parte da própria obra, e há sempre o Louvre como alternativa, aberto às sextas-feiras até as 21h45, para quem busca o prazer quieto de se perder entre galerias como Eva Green, Louis Garrel e Michael Pitt fizeram em The Dreamers, de Bernardo Bertolucci.
Eis sete programas que definem o verão cultural na Ville Lumière.
1. Cloud #0715, de Fujiko Nakaya, e Clair-obscur na Bourse de Commerce
Entrar na nuvem de vapor que envolve a Rotonda da Bourse de Commerce é uma experiência sensorial difícil de descrever, e só se entende de fato vivendo-a. Depois dos primeiros segundos de desorientação, o melhor é se deixar envolver pela névoa e acompanhar com o olhar as silhuetas dos outros visitantes, enquanto o espaço muda de forma. A instalação, intitulada Cloud #0715, é assinada pela artista japonesa Fujiko Nakaya, considerada a criadora das Fog Sculptures e presença constante em museus ao redor do mundo há mais de cinco décadas. A obra integra Clair-obscur, grande mostra da Pinault Collection dedicada ao diálogo entre luz e sombra, em cartaz até 24 de agosto de 2026. Já Cloud #0715 permanece na Rotonda até 14 de setembro de 2026.


2. Hilma af Klint. Les peintures du Temple (1906-1915) no Grand Palais
De 6 de maio a 30 de agosto de 2026, o Grand Palais, em parceria com o Centre Pompidou, dedica a primeira grande retrospectiva francesa a Hilma af Klint, uma das pioneiras da abstração. Suas telas, produzidas no início do século XX, anteciparam o vocabulário visual que Kandinsky e Mondrian consagrariam anos depois. Pela primeira vez em território francês, é exibido o ciclo monumental Paintings for the Temple, o projeto mais ambicioso de sua carreira: telas de grandes dimensões atravessadas por espirais, formas geométricas e simbolismo espiritual, construindo um universo secreto e surpreendentemente contemporâneo. Convencida de que sua época não estava preparada para compreendê-las, Hilma af Klint deixou instruções para que os quadros só fossem mostrados ao público décadas após sua morte. Quase oitenta anos depois de seu desaparecimento, a obra finalmente ocupa o lugar que lhe cabe na história da arte.


3. La photographie en toutes les lettres e Camille Vivier na Maison Européenne de la Photographie
No segundo andar da Maison Européenne de la Photographie, a poucos passos do Marais, uma verdadeira aula de fotografia organiza o percurso como um alfabeto: cada letra corresponde a uma palavra-chave, um tema e uma seleção de obras de fotógrafos e artistas distintos. T, de Taxonomie, apresenta o trabalho do coletivo Exactitudes; UV conduz às praias do Brasil fotografadas por Rogerio Reis, e assim por diante. Completa a visita a retrospectiva dedicada a Camille Vivier, uma das fotógrafas francesas mais interessantes de sua geração, cujo trabalho tem como eixo o corpo feminino, sobretudo o das bodybuilders.



4. Alexander Calder na Fondation Louis Vuitton
A Fondation Louis Vuitton dedica uma grande retrospectiva a Alexander Calder, o artista que reinventou a escultura do século XX ao transformá-la em movimento. Célebre por seus mobiles, Calder construiu estruturas leves e coloridas em que o vazio, criado pelo equilíbrio das formas, é parte constitutiva da obra. A mostra interessa não apenas ao público de arte e escultura, mas também ao universo da moda: seu vocabulário poético e reconhecível continua a influenciar diretores criativos contemporâneos, e Simon Porte Jacquemus já declarou publicamente sua dívida com o artista.

5. Alaïa et l’Afrique na Fondation Azzedine Alaïa
Escondida no coração do Marais, a Fondation Azzedine Alaïa é destino obrigatório para quem acompanha moda com atenção. Instalada no antigo ateliê do estilista tunisiano, a fundação preserva a atmosfera da maison onde Alaïa vivia e trabalhava. Além de abrir o estúdio à visitação, o espaço apresenta mostras curadas por Olivier Saillard, um dos historiadores de moda contemporânea mais respeitados. De 7 de julho de 2026 a 4 de janeiro de 2027, Alaïa et l’Afrique reconstrói o vínculo profundo entre o estilista e o continente africano por meio de vestidos, fotografias, esculturas e objetos de arte.

6. Leandro Erlich no Grand Palais
O Grand Palais reserva um segundo compromisso para o verão. Além da monográfica dedicada a Hilma af Klint, o museu recebe até 6 de setembro de 2026 o universo invertido de Leandro Erlich. Conhecido por instalações como Swimming Pool e Bâtiment, o artista argentino transforma o edifício em um labirinto de ilusões ópticas e arquiteturas impossíveis, onde perspectivas em grande escala colocam a percepção de realidade constantemente em xeque.

7. Cité de l’Architecture et du Patrimoine
Um endereço pouco conhecido, mas que justifica o desvio. De frente para o Trocadéro, a Cité de l’Architecture et du Patrimoine guarda uma das coleções permanentes mais surpreendentes de Paris. O percurso atravessa mais de mil anos de arquitetura francesa: dos moldes monumentais de portais, fachadas e esculturas medievais até modelos da arquitetura contemporânea, passando pela reconstrução em escala real de um apartamento da Cité Radieuse, de Le Corbusier. Os pés-direitos altíssimos são um dos grandes atrativos do museu, que ainda oferece uma das vistas mais bonitas da cidade sobre a Torre Eiffel.

Entre o vapor de Nakaya, as espirais de Hilma af Klint e o vazio calculado de Calder, Paris confirma neste verão o que sempre soube: sua força não está apenas nas ruas ou no rio, mas na disciplina com que transforma cada sala em convite silencioso à atenção.


