
WAYFARER Estilo · Nova York
Na New York Fashion Week, a PatBO levou o paisagismo brasileiro à passarela e estreou sua primeira linha de eyewear, produzida na Itália. A coleção fala de artesanato. A estrutura fala de escala.
Fotos BFA, Alex Feggi e Rodolfo Sanches
Leitura de 6 minutos
Toda marca brasileira que atravessa a fronteira precisa decidir o que faz com o Brasil: se o exibe como paisagem ou se o usa como método. Nesta terça-feira, no Domino Square, em Nova York, a PatBO escolheu a segunda opção — e, no mesmo desfile, deixou claro o que pretende fazer com ela. A coleção Spring 27 se chama Brasil Esplêndido, e a notícia que interessa não está no nome.
Linha do tempo
Como a PatBO chegou ao Domino Square
A palavra é paisagismo
Uma marca usa o país como estampa, outra usa como gramática
Sob direção criativa de Patricia Bonaldi, a apresentação levou à passarela bordados feitos à mão, transparências, volumes, estampas autorais e silhuetas fluidas, numa leitura contemporânea da natureza e do paisagismo brasileiro. A escolha da palavra importa mais do que parece.
Paisagismo não é natureza. É natureza editada, geometrizada, posta em composição — e, no Brasil, o termo tem endereço: a tradição modernista que transformou vegetação tropical em desenho antes de qualquer marca de moda pensar em exportar brasilidade. O beauty look confirma a pista. O cabelo, assinado por LEONI em parceria com a KEUNE, partiu do modernismo e das curvas presentes nas estampas, em especial a Wave Maré, de tons de azul.
É a distinção que separa duas categorias de marca. Uma usa o Brasil como estampa e depende de que o público estrangeiro reconheça o clichê. A outra usa o Brasil como gramática, e aí a referência sobrevive à temporada.
Savoir-faire é a palavra mais gasta do vocabulário de moda. Só vale quando há uma fábrica atrás dela.

O que sustenta a palavra artesanal
A cadeia física por trás do adjetivo
A PatBO nasceu em 2012, dez anos depois da marca homônima que Patricia Bonaldi abriu em Uberlândia, em 2002, dedicada a vestidos de festa bordados. O bordado nunca saiu do centro do negócio. Na mesma cidade funcionam o ateliê e o Costurando Sonhos, escola de bordado criada pela estilista, por onde passaram mais de quinhentas alunas.
É esse lastro que separa feito à mão de argumento de vitrine. Quando a marca fala em trabalho manual, existe uma cadeia física sustentando a frase, e é dela que sai a parte da coleção que não se reproduz por escala — que é, não por acaso, a parte que justifica o preço.
Esta coleção nasce do Brasil, da sua exuberância, das suas paisagens e da força da nossa identidade.Patricia Bonaldi, diretora criativa da PatBO
A estreia que não estava no vestuário
Primeira linha de eyewear, produzida na Itália
O desfile marcou também a estreia da primeira coleção de eyewear da PatBO, apresentada pela primeira vez numa passarela da NYFW. A linha reúne modelos solares, é produzida integralmente na Itália e chega oficialmente em outubro. Ao lado dela, sapatos e bolsas ganharam peso na coleção.
Óculos, sapatos e bolsas são o território onde uma marca de roupa deixa de depender de grade, prova e sazonalidade. O ticket de entrada é menor, a recompra é maior, a peça viaja melhor no multimarcas internacional e não exige que a cliente caiba nela. É a mesma rota que praticamente todas as maisons europeias percorreram antes de virarem grupos.
Há uma tensão honesta aqui, e vale nomeá-la. A coleção argumenta com trabalho manual mineiro e a nova categoria nasce industrial, do outro lado do Atlântico. Não é contradição: o distrito italiano de óculos é a referência de qualidade do setor, e recorrer a ele é sinal de seriedade, não atalho. Mas é uma segunda promessa, feita com outra voz. A marca que se apresenta pelo que é feito à mão vai precisar explicar, em algum momento, o que sobra da mão quando o produto é um óculos de sol.



De recuo a passarela em sete meses
Quem tem categoria nova precisa de alcance
Em fevereiro, para a Fall 26, a PatBO não desfilou. Apresentou a coleção em formato intimista no Georgia Room, no Freehand Hotel, para algo entre oitenta e cem convidados — editores, compradores e formadores de opinião. Era um movimento de precisão: falar com quem compra, não com quem assiste.
Sete meses depois, a marca volta ao desfile, com casa e lista. Kelly Piquet, Jordanna Maia, Kendra Scott, Paula Saric, Estela Newbold, Carolina Mendes, Maria Brasil e Durana Elmi estavam no Domino Square. A leitura é direta: a PatBO passou da conversa para o anúncio.
A marca segue sendo a única brasileira no calendário oficial da New York Fashion Week, posição que ocupa há temporadas e que, sozinha, já é ativo comercial. O que o comunicado não diz é o que o mercado gostaria de saber: quantas portas, a que preço, com qual meta para acessórios. Sem esses números, o desfile é uma declaração de intenção bem executada. A prova vem em outubro.
Galeria
Brasil Esplêndido na passarela













Serviço
PatBO · Spring 27
01Identidade
- Marca
- PatBO
- Coleção
- Spring 27 — Brasil Esplêndido
- Direção criativa
- Patricia Bonaldi
- Site e Instagram
- patbo.com · @patbo
02Apresentação
- Data
- 15 de setembro de 2026
- Local
- Domino Square, Nova York
- Calendário
- New York Fashion Week
- Convidados
- Kelly Piquet, Jordanna Maia, Kendra Scott, Paula Saric, Estela Newbold, Carolina Mendes, Maria Brasil e Durana Elmi
03Novidades da temporada
- Eyewear
- Primeira coleção da marca, modelos solares, produção integralmente italiana, lançamento oficial em outubro
- Shoes & bags
- Ampliação das categorias de acessórios
- Repertório
- Bordados feitos à mão, transparências, volumes, estampas autorais e silhuetas fluidas
04Equipe e créditos
- Styling
- Leandro Porto
- Hair
- LEONI, em parceria com a KEUNE
- Maquiagem
- Natura Una
- Intimates
- HOPE
- Vídeo
- Jairo Junior, Two Houses NY
- Fotografia
- BFA, Alex Feggi, Rodolfo Sanches e Luena Leitão
Toda marca brasileira que atravessa a fronteira decide o que faz com o Brasil. A PatBO decidiu usá-lo como gramática — e, no mesmo dia, mostrou que pretende conjugá-la em mais categorias. O bordado segue sendo a história que ela conta. Os óculos são a frase que ela ainda vai precisar terminar.
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER.
