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Koral: o mar como método

Em dois anos, o Koral tornou-se o endereço mais observado da nova cozinha carioca. Pedro Coronha, 29 anos, levou o Young Chef Award do Guia MICHELIN 2026 e o Bib Gourmand, único do Rio na edição.

WAYFARER · Perfil | Rio de Janeiro

Em dois anos, um casarão de Ipanema tornou-se o endereço mais observado da nova cozinha carioca. Não por barulho.

Existe um tipo de cozinha que não precisa levantar a voz. Ela ocupa um casarão de dois andares na Rua Barão da Torre, a poucos metros do parque Nossa Senhora da Paz, e atende por Koral. Nada na fachada informa o que acontece lá dentro. É preciso entrar.

A casa abriu no fim de janeiro de 2024, no ponto onde funcionava uma unidade da rede Gula Gula. São 500 metros quadrados, cerca de 97 lugares distribuídos entre a varanda e o salão interno, e uma cozinha aberta que não foi projetada como espetáculo, mas como convite: quem senta acompanha o preparo do prato que vai receber. Dois anos depois da abertura, em 13 de abril de 2026, no salão do Copacabana Palace, o Koral recebeu duas das distinções mais observadas da gastronomia brasileira na mesma noite.

A casa: contenção como projeto

O ambiente é claro, de linhas limpas, próximo do minimalismo sem cair no asséptico. Marfim, madeira, pé-direito alto de casa antiga. A varanda, mais descontraída, recebe o fim de tarde de Ipanema; o salão interno é reservado sem ser fechado. Não há cenografia. Há espaço, luz e a temperatura de uma casa onde se recebe bem.

O nome tem duas origens. A primeira é evidente na carta: o oceano, presente na vida do chef e na composição de quase todo o menu. A segunda é aritmética. O K é a décima primeira letra do alfabeto latino e indica uma unidade multiplicada por mil. A ideia de multiplicação foi incorporada ao conceito da casa como imagem de prosperidade.

Uma cozinha aberta é uma declaração de método. Quem não tem o que esconder, mostra.

O chef: uma década antes dos trinta

Pedro Coronha tem 29 anos e dez de cozinha profissional. Carioca, surfista, mora a duas ruas da praia da Barra da Tijuca. Entrou na profissão aos 18, sem herança familiar no setor, movido pelo interesse na criação. Tentou o Culinary Institute of America, nos Estados Unidos, e não conseguiu a vaga. Ficou no Rio e estudou em curso ligado à escola Alain Ducasse.

O resto da formação foi feito em salão e praça. Passou pelo Eleven no Rio e pelo Eleven em Lisboa, entre 2017 e 2018, onde absorveu base clássica e disciplina de ingrediente. Em 2019 estagiou no Noma, em Copenhague, e de lá trouxe menos uma estética do que uma gestão: aproveitamento integral, controle de insumo, rigor de equipe. Voltou ao Brasil e, em 2021, abriu o Mäska, projeto que o colocou na crítica carioca e lhe rendeu o primeiro reconhecimento como revelação. O Koral veio depois, e desta vez como sócio.

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A cozinha: da brasa ao cru

O menu cruza três geografias sem hierarquia entre elas: sul-americana, nórdica e asiática. O resultado não é fusão declarativa, é uma carta que se sustenta em produto e técnica e recusa a solenidade.

A entrada mais pedida está no cardápio desde o primeiro dia. O crudo no carvão reúne sashimis levemente selados, molho de tomate assado à putanesca e lâminas de sourdough. Ao lado dele, o ceviche com sorbet de maracujá e lulas crocantes trabalha acidez e frescor na mesma colher, e o tartelete de caranguejo resolve em dois movimentos o que muita casa não resolve em cinco.

Entre os principais, o arroz de corais é a síntese da casa: polvo grelhado, pedaços de peixe, chorizo e aïoli. Há brasa, há cru, há vegetal tratado com a mesma atenção que se dá à proteína. E há sobremesa de verdade, departamento que o Koral levou a sério desde o início e que lhe rendeu, em 2024, o prêmio de melhor sobremesa do Comer & Beber da Veja Rio. A tortinha quente de massa folhada de queijo com goiabada permanece a tradução mais direta do que a casa entende por doce: brasileira, precisa, sem excesso.

As distinções: 13 de abril de 2026

A cerimônia do Guia MICHELIN Rio de Janeiro e São Paulo 2026 aconteceu no Copacabana Palace. Coronha estava nas últimas fileiras, ao lado da namorada, quando os prêmios especiais começaram a ser anunciados. Ouviu o próprio nome e aplaudiu junto, no automático, antes de entender que era ele. Recebeu o Young Chef Award, com apoio da Mastercard. Na sequência, o Koral entrou para a categoria Bib Gourmand, distinção criada em 1997 para casas que entregam cozinha autoral com relação justa entre qualidade e preço. Foi o único restaurante do Rio a receber o selo naquela edição.

“É uma sensação difícil de explicar.”
Pedro Coronha

No palco, o chef dividiu o reconhecimento com a equipe, com os clientes e com os colegas presentes no salão. Fora dele, admitiu que a ficha só caiu na manhã seguinte, quando acordou e viu os dois troféus na sala de casa.

As distinções de abril se somam a um histórico curto e denso: 74º lugar na lista dos 100 Melhores Restaurantes do Brasil, da Casual Exame; melhor sobremesa no Comer & Beber da Veja Rio de 2024; chef revelação no Rio Show de Gastronomia em 2022 e no Comer & Beber de 2021. Quatro anos, cinco reconhecimentos, uma casa com dois de idade.

O que fica

O Rio passou uma década sendo descrito como cidade de vista, não de mesa. O Koral pertence à geração que desfez esse diagnóstico sem precisar argumentar: abriu, cozinhou bem, repetiu. A regularidade, e não o gesto, é o que o Bib Gourmand mede.

Coronha continua no salão. Circula entre as mesas, conversa, volta para a praça. Não delega a presença. Numa cidade que aprendeu a confundir reconhecimento com ausência, esse é o detalhe que mais diz sobre a casa: o chef premiado é o mesmo que serve. Existe um tipo de cozinha que não precisa levantar a voz. Em Ipanema, ela tem endereço.


Serviço

Koral
Rua Barão da Torre, 446, Ipanema, Rio de Janeiro
Fechado às segundas
Terça a domingo, almoço a partir das 12h
Terça a sábado, jantar a partir das 19h, até meia-noite de quinta a sábado
Domingo, até as 19h
Telefone: +55 21 99513-6437
Instagram: @koralrest


Gabriel Silveirado, para a WAYFARER. Rio de Janeiro.

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