WAYFARER · Automotivo | Monterey, Califórnia
Existem eventos que se cobre. E existem eventos que reorganizam o calendário até que se aceite uma coisa simples: o ano automotivo começa em agosto, numa faixa de costa californiana com pouco mais de vinte quilômetros de extensão.
Monterey é do segundo tipo. Voltei a ela em 2024 e 2025, e volto em agosto de 2026, quando o Pebble Beach Concours d’Elegance chega à 75ª edição. O texto a seguir tem duas ambições: explicar, para quem nunca foi, como a semana funciona de verdade, e registrar, para quem coleciona, o que mudou nos critérios e nos números.

Onde isso acontece
A península de Monterey fica cerca de 190 quilômetros ao sul de São Francisco. É uma área pequena, cara e com pouca infraestrutura de circulação, o que explica quase tudo sobre a logística da semana.
Quatro endereços concentram o essencial. O Pebble Beach Golf Links, onde acontece o Concours no 18º fairway, sobre o Pacífico. O Quail Lodge & Golf Club, em Carmel Valley, que recebe o The Quail. O WeatherTech Raceway Laguna Seca, em Salinas, onde correm os históricos. E o centro de Monterey, sede dos leilões.
Ao redor deles estão a 17-Mile Drive, a Del Monte Forest, Carmel-by-the-Sea e, mais ao sul, Big Sur. Nada disso é acessório: a paisagem é parte do argumento do evento.
A atmosfera, que ninguém avisa
A primeira surpresa é o frio. Agosto na costa central da Califórnia não é verão: é neblina densa até meio da manhã, vento do Pacífico e temperatura que pede casaco às seis da manhã e permite manga curta ao meio-dia. Quem chega com roupa de férias passa metade do dia tremendo.
A segunda é o ritmo. O gramado de Pebble Beach é um lugar lento. As pessoas circulam devagar, param, agacham, olham por baixo do para-lama, conversam com o proprietário e seguem. Há Vivaldi tocando ao fundo, taças na mão desde cedo, piqueniques armados na beira do campo e um protocolo tácito de não tocar em nada. Quando o Best of Show é anunciado, os canhões de confete disparam e o carro sobe a rampa com o dono ao volante, quase sempre emocionado. É o único momento alto do dia.
A terceira é a informalidade. Presidentes de marcas, diretores de design e pilotos históricos andam pelo gramado sem cortejo, de óculos escuros e chapéu, parando para olhar carros como qualquer um. Ninguém pede foto. Essa contenção coletiva é, talvez, a coisa mais característica da semana.
Existe um tipo de poder que não precisa levantar a voz. Em Pebble Beach, ele anda de casaco de lã, com um café na mão, às seis da manhã.
O código de vestuário fica em algum ponto entre clube de campo e imprensa especializada. Blazer e sapato confortável resolvem. Chapéu ajuda depois das onze. E salto alto é um erro logístico: o dia inteiro é em pé, sobre grama irregular.
Laguna Seca, a quarenta minutos dali, é o oposto exato. Cheiro de combustível não queimado, ruído sem filtro, arquibancada, boxes abertos ao público e carros de corrida históricos sendo usados como foram feitos para ser. Carmel, à noite, absorve o resto: restaurantes lotados, listas de espera, mesas onde metade das conversas é sobre procedência.

O que é, na origem
O Concours nasceu em 5 de novembro de 1950 como complemento elegante de uma corrida de rua pela Del Monte Forest. Era o coadjuvante. A prova acabou em 1956, quando o traçado se tornou perigoso demais. O concurso ficou.
Setenta e cinco anos depois, a corrida que era o motivo desapareceu e o detalhe social que a acompanhava virou o centro do calendário mundial do automóvel de coleção, com dez dias de programação ocupando a península inteira.
Não é uma disputa de velocidade. É uma disputa de precisão histórica, mérito técnico e estilo. Três coisas que não se compram no mesmo lugar.
Como um carro chega ao gramado
Este é o ponto que mais surpreende quem chega de fora: não se compra uma vaga em Pebble Beach.
Os candidatos se inscrevem até o início de janeiro. Os carros precisam estar impecavelmente restaurados ou conservados e, de preferência, não ter passado por outro concurso relevante, nem pelo próprio Pebble Beach, na última década. A lista definitiva sai em abril. No domingo, cada classe é avaliada por juízes técnicos, e acima deles está um corpo de jurados honorários formado por diretores de design, executivos das grandes marcas e nomes do automobilismo. Em 2025, integrou esse grupo Tom Kristensen, nove vezes vencedor das 24 Horas de Le Mans.
Vencedores de classe desfilam pela rampa no fim da tarde. Um único carro leva o Best of Show, o título mais alto que um automóvel de coleção pode receber no mundo.

O domingo começa no escuro
A parte que ninguém conta para quem nunca foi é que o melhor momento acontece antes de o evento abrir.
Chama-se Dawn Patrol. Ainda de madrugada, os carros sobem em procissão até o fairway, faróis acesos, motores frios, entre fileiras de gente de casaco. Serve-se café e rosquinha. Ouve-se cada máquina isolada, sem público em volta, e os proprietários ainda estão acessíveis, muitos deles dirigindo o próprio carro. Depois vem o pano de pó, o posicionamento, o julgamento e a multidão.

Ao lado da competição fica o Concept Lawn, onde as marcas expõem conceitos e protótipos. É o contraponto deliberado: de um lado, cem anos de história consolidada; do outro, a aposta sobre os próximos dez.
A semana inteira, evento por evento
Pebble Beach Tour d’Elegance. Na quinta-feira, cerca de duas centenas de inscritos no Concours saem para um percurso de aproximadamente 110 quilômetros pela costa. Serve para provar que os carros andam, e vale como critério de desempate no domingo. É o dia mais generoso da semana para quem só quer assistir: basta uma cadeira dobrável à beira da estrada e paciência. As famílias locais fazem exatamente isso, há décadas.
The Quail, A Motorsports Gathering. Na sexta, em Carmel Valley. Público limitado a cerca de 3.500 pessoas. Assumiu a função que os salões do automóvel perderam: é ali que as marcas fazem estreias mundiais. Tem gramado impecável, estações de comida e vinho abertas o dia inteiro, concurso próprio e Best of Show próprio. O clima é de almoço longo entre pessoas que se conhecem.
Rolex Monterey Motorsports Reunion. Quatro dias de corridas históricas em Laguna Seca, com centenas de carros de competição divididos por época.

Os leilões. RM Sotheby’s, Gooding Christie’s (casa oficial do Concours), Broad Arrow, Bonhams e Mecum operam em paralelo entre quarta e sábado. Monterey é o único evento do ano em que vários carros de oito dígitos passam pelo martelo na mesma semana, o que o transforma no principal indicador de preço do setor.
O resto. Motorlux no Monterey Jet Center, Automobilia Collectors Expo, RetroAuto, Concours Village, Werks Reunion da Porsche, Little Car Show em Pacific Grove e o Concours d’Lemons, que premia o oposto de tudo o que Pebble Beach celebra.
Quem está no gramado
Vale ser direto sobre isso, porque a imagem que circula é parcial.
Na vizinhança de Pebble Beach, as casas se contam entre oito e cinquenta milhões de dólares. Num único ano recente, os leilões da semana ofereceram mais de 160 carros avaliados acima de um milhão de dólares. No The Quail, o público é composto por gente que assiste à revelação de um carro de setecentos mil dólares e, em seguida, pergunta ao representante da marca como comprar um. É por isso que as estreias migraram dos salões para lá: não é vitrine, é sala de vendas.

Ao mesmo tempo, o domingo de Pebble Beach recebe cerca de vinte mil pessoas, e aproximadamente um terço da programação da semana é gratuito. Existe uma pirâmide inteira ali: o colecionador que expõe, o comprador que veio decidir, o entusiasta que economizou o ano para o ingresso e a família da região que assiste ao Tour da calçada. As quatro camadas dividem o mesmo asfalto durante dez dias.
Há uma mudança de perfil em curso, e ela aparece nos preços. O comprador que hoje tem quarenta e poucos anos não persegue o mesmo carro que o comprador de setenta. Ele quer o que o marcou na adolescência, e isso empurrou o mercado na direção dos anos 1980 e 1990, com efeito direto sobre o que os clássicos de entreguerras conseguem realizar em leilão.
Cerca de um terço da programação é gratuita. A parte cara da semana é a que aparece nas fotos. A parte interessante, não necessariamente.
O que se paga, e quando decidir
A entrada geral do Concours de 2026 sobe para US$ 650 a partir de 1º de agosto, com pacotes de hospitalidade acima disso. O The Quail trabalha na faixa dos US$ 1.500 e esgota. Laguna Seca e os eventos abertos ficam em outra ordem de grandeza.
O gargalo real, porém, não é ingresso. É hospedagem. Hotéis em Carmel e Monterey costumam ser tomados com até dois anos de antecedência, enquanto as companhias aéreas raramente abrem tarifas com mais de doze meses. Quem decide em junho paga tarde e mal. É o conselho mais útil que se pode dar a um estreante.
Vale registrar o que o evento devolve: o Concours já destinou mais de US$ 41 milhões a cerca de cem organizações locais, com foco em educação. Para 2026, há um desafio de contrapartida que promete dobrar doações até US$ 1 milhão.
2024: quando o desgaste virou virtude
A 73ª edição reuniu 214 carros, vindos de 16 países e 29 estados americanos. E terminou com uma decisão que reescreveu o manual.
Pela primeira vez na história de Pebble Beach, o Best of Show foi para um carro de preservação: um Bugatti Type 59 Sports de 1934, apresentado por Fritz Burkard, da The Pearl Collection, de Zug, na Suíça. O primeiro Type 59 construído, vencedor do Grande Prêmio da Bélgica com René Dreyfus e depois comprado pelo rei Leopoldo III, que o repintou em preto e amarelo. É assim que ele permanece. Sem restauração. Com as marcas todas à vista.

Burkard também se tornou o primeiro proprietário europeu a vencer ali.
Durante décadas, Pebble Beach premiou o carro devolvido ao estado de fábrica. Em 2024, premiou o carro que se recusou a esquecer o que viveu.
Os leilões contaram outra história. Foram US$ 391,6 milhões na semana, queda de quase 3% sobre o ano anterior, com os carros acima de um milhão de dólares vendendo bem pior do que o normal. A venda mais alta foi uma Ferrari 250 GT SWB California Spider de 1960, por US$ 17 milhões. O dinheiro não saiu do mercado. Migrou para o que é mais recente.
O registro daquela edição está em Por dentro do evento automotivo mais exclusivo do mundo.
A conversa que ficou
Na sexta-feira daquela semana, o The Quail apresentou 21 estreias. A que concentrou tudo foi a da Lamborghini: o Temerario, sucessor do Huracán, com 920 cv e um V8 turbo que sobe a 10.000 rpm, coisa rara em motor sobrealimentado.

Foi ali que conversei com Rouven Mohr, diretor técnico da marca. Ele falou pouco sobre números e muito sobre o que a casa se recusa a abandonar. A entrevista está publicada aqui: Temerario: o superesportivo que redefine o futuro da Lamborghini.
O Best of Show do The Quail em 2024 ficou com um Delahaye Type 135 de 1937, de Sam e Emily Mann.
2025: madeira, 8.500 rebites
A 74ª edição foi maior: 229 carros, de 22 países e 31 estados americanos, diante de cerca de 20 mil espectadores.
Venceu um Hispano-Suiza H6C Nieuport-Astra Torpedo de 1924, apresentado por Penny e Lee Anderson Sr., de Naples, Flórida. Segunda vitória do casal em Pebble Beach, depois do Duesenberg de 2022, e a primeira da marca espanhola desde 1989.
O carro foi encomendado por André Dubonnet, herdeiro do aperitivo e piloto amador, e recebeu carroceria da fábrica aeronáutica Nieuport-Astra: tiras estreitas de mogno, cada uma esculpida à mão, unidas por 8.500 rebites, como a fuselagem de um avião. O conjunto pesava pouco mais de setenta quilos. Dubonnet correu com ele na Targa Florio. Ver aquilo de perto, ao amanhecer, com o orvalho ainda na madeira, é a imagem que eu levo da edição.
Nos leilões, US$ 432,8 milhões, o segundo maior resultado da história do evento, com oito Ferrari entre os dez carros mais caros. O mais alto foi uma Ferrari Daytona SP3 Tailor Made, vendida por US$ 26 milhões, com a receita integralmente destinada à Ferrari Foundation. O ranking está em Conheça os dez carros mais caros vendidos nos leilões da Monterey Car Week.


No The Quail, a Lamborghini apresentou o Fenomeno, 29 unidades e o V12 mais potente já construído pela casa. A Bugatti revelou o Brouillard, primeiro trabalho do Programme Solitaire, batizado com o nome do cavalo preferido de Ettore Bugatti. Cadillac e Corvette trouxeram conceitos. O Best of Show do The Quail foi para uma Ferrari F50 GT1 de 1996, de Art Zafiropoulo.
2026: os 75 anos
A semana vai de 7 a 16 de agosto. O Motorsports Reunion ocupa Laguna Seca de 12 a 15. O Tour d’Elegance sai na quinta, dia 13. O The Quail acontece na sexta, dia 14. E o 75º Pebble Beach Concours d’Elegance fecha tudo no domingo, 16 de agosto.
A marca em destaque é a Ferrari, escolha coerente com a biografia do evento. A primeira Ferrari a pisar naquele gramado foi a 166 MM Touring Barchetta de Jim Kimberly, em 1951, que depois capotou nas corridas de rua e deixou o piloto ileso. De lá para cá, mais de 900 Ferrari passaram por ali. Em 2026, o recorte é específico: as vencedoras absolutas de Le Mans, os carros de competição de Luigi Chinetti e da NART, e os modelos encarroçados pela Vignale, escolhida como carroçaria homenageada.
Estreiam três classes: Early American Speedsters, Classic Streamliners e Japanese Motorsports. A última é a mais reveladora. O concurso mais conservador do mundo abriu uma porta que estava fechada, e ela dá para o Japão.
Uma classe nova em Pebble Beach não é uma decisão de programação. É uma declaração sobre o que passa a ser considerado patrimônio.
Há ainda um detalhe para quem planeja com antecedência. A partir de 2028, o Concours deixa o terceiro domingo de agosto e passa para o segundo, por causa do calendário escolar americano, que tem começado cada vez mais cedo e afastado famílias do evento. As datas já estão definidas até 2030. Como a semana se estende por dez dias, é provável que boa parte da programação escorregue para o início do mês.
Ou seja: 2026 e 2027 estão entre as últimas edições no lugar de sempre.

O que sobra depois do domingo
Depois de quatro edições, o que fica não é o Best of Show. É a percepção de que Monterey funciona como termômetro, e que ele mede duas temperaturas ao mesmo tempo.
Uma é financeira, e está nos leilões: US$ 471,2 milhões em 2022, US$ 391,6 milhões em 2024, US$ 432,8 milhões em 2025. A outra é cultural, e está no gramado: em 2024 um carro sem restauração venceu pela primeira vez, em 2025 venceu uma carroceria de mogno, e em 2026 abre-se uma classe japonesa. Em três anos, o evento mais tradicional do calendário mudou de ideia sobre o que é perfeição.
Para quem vai pela primeira vez, o conselho é curto: chegue no escuro, na quinta e no domingo, e leve casaco. O resto do dia pertence à multidão. As duas horas antes do amanhecer pertencem aos carros.
O automóvel de coleção não sobrevive porque é caro. Sobrevive porque alguém decidiu, num domingo de agosto, com a neblina ainda baixa sobre o Pacífico, que aquela história merecia continuar sendo contada.
Gabriel Silveirado, para a WAYFARER. Monterey, Califórnia.
