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Museus e fundações parisienses reúnem grandes nomes da arte no verão de 2026

Paris se transforma sem pressa, mas sem pausa. A cidade guarda no subsolo os vestígios da fortaleza medieval de Filipe Augusto, sob o Louvre, e as ruínas do anfiteatro galo-romano escondidas entre os prédios do quinto arrondissement. Nesta temporada, a metamorfose mais notável acontece no Sena: depois de quase um século de proibição, trechos do rio voltaram a receber banhistas, e o Canal Saint-Martin ganhou multidões que mergulham até o pôr do sol.

Se as margens do rio se tornaram o símbolo do novo verão parisiense, os museus continuam sendo o refúgio mais sedutor da cidade. A programação artística de Paris está entre as mais densas do mundo, cruzando os clássicos da tradição com uma cena contemporânea de repertório afiado. Nesta estação, várias mostras convertem o visitante em parte da própria obra, e há sempre o Louvre como alternativa, aberto às sextas-feiras até as 21h45, para quem busca o prazer quieto de se perder entre galerias como Eva Green, Louis Garrel e Michael Pitt fizeram em The Dreamers, de Bernardo Bertolucci.

Eis sete programas que definem o verão cultural na Ville Lumière.

1. Cloud #0715, de Fujiko Nakaya, e Clair-obscur na Bourse de Commerce

Entrar na nuvem de vapor que envolve a Rotonda da Bourse de Commerce é uma experiência sensorial difícil de descrever, e só se entende de fato vivendo-a. Depois dos primeiros segundos de desorientação, o melhor é se deixar envolver pela névoa e acompanhar com o olhar as silhuetas dos outros visitantes, enquanto o espaço muda de forma. A instalação, intitulada Cloud #0715, é assinada pela artista japonesa Fujiko Nakaya, considerada a criadora das Fog Sculptures e presença constante em museus ao redor do mundo há mais de cinco décadas. A obra integra Clair-obscur, grande mostra da Pinault Collection dedicada ao diálogo entre luz e sombra, em cartaz até 24 de agosto de 2026. Já Cloud #0715 permanece na Rotonda até 14 de setembro de 2026.

Névoa artística envolve visitantes na Rotonda da Bourse de Commerce
A instalação de Fujiko Nakaya transforma a Rotonda em paisagem de vapor até setembro.
Visitantes atravessam a nuvem de vapor da instalação de Fujiko Nakaya
Silhuetas se dissolvem na névoa criada pela pioneira das Fog Sculptures.

2. Hilma af Klint. Les peintures du Temple (1906-1915) no Grand Palais

De 6 de maio a 30 de agosto de 2026, o Grand Palais, em parceria com o Centre Pompidou, dedica a primeira grande retrospectiva francesa a Hilma af Klint, uma das pioneiras da abstração. Suas telas, produzidas no início do século XX, anteciparam o vocabulário visual que Kandinsky e Mondrian consagrariam anos depois. Pela primeira vez em território francês, é exibido o ciclo monumental Paintings for the Temple, o projeto mais ambicioso de sua carreira: telas de grandes dimensões atravessadas por espirais, formas geométricas e simbolismo espiritual, construindo um universo secreto e surpreendentemente contemporâneo. Convencida de que sua época não estava preparada para compreendê-las, Hilma af Klint deixou instruções para que os quadros só fossem mostrados ao público décadas após sua morte. Quase oitenta anos depois de seu desaparecimento, a obra finalmente ocupa o lugar que lhe cabe na história da arte.

Tela de Hilma af Klint com espirais e formas geométricas coloridas
I Dieci Più Grandi, Grupo IV, pintada entre outubro e dezembro de 1907.
Obra abstrata de Hilma af Klint da série Os Dez Maiores
Peça da série que antecipou a linguagem da abstração ocidental.

3. La photographie en toutes les lettres e Camille Vivier na Maison Européenne de la Photographie

No segundo andar da Maison Européenne de la Photographie, a poucos passos do Marais, uma verdadeira aula de fotografia organiza o percurso como um alfabeto: cada letra corresponde a uma palavra-chave, um tema e uma seleção de obras de fotógrafos e artistas distintos. T, de Taxonomie, apresenta o trabalho do coletivo Exactitudes; UV conduz às praias do Brasil fotografadas por Rogerio Reis, e assim por diante. Completa a visita a retrospectiva dedicada a Camille Vivier, uma das fotógrafas francesas mais interessantes de sua geração, cujo trabalho tem como eixo o corpo feminino, sobretudo o das bodybuilders.

Retrato em preto e branco de corpo feminino musculoso por Camille Vivier
O corpo da mulher, e em particular das bodybuilders, atravessa o trabalho de Camille Vivier.
Fotografia de Camille Vivier em exibição na Maison Européenne de la Photographie
Uma das imagens da retrospectiva dedicada à fotógrafa francesa.
Composição fotográfica de Camille Vivier com foco no corpo humano
Repertório que consolidou Vivier entre as fotógrafas mais relevantes de sua geração.

4. Alexander Calder na Fondation Louis Vuitton

A Fondation Louis Vuitton dedica uma grande retrospectiva a Alexander Calder, o artista que reinventou a escultura do século XX ao transformá-la em movimento. Célebre por seus mobiles, Calder construiu estruturas leves e coloridas em que o vazio, criado pelo equilíbrio das formas, é parte constitutiva da obra. A mostra interessa não apenas ao público de arte e escultura, mas também ao universo da moda: seu vocabulário poético e reconhecível continua a influenciar diretores criativos contemporâneos, e Simon Porte Jacquemus já declarou publicamente sua dívida com o artista.

Mobile colorido de Alexander Calder suspenso em galeria da Fondation Louis Vuitton
Equilíbrio e vazio se tornam linguagem na retrospectiva dedicada a Alexander Calder.

5. Alaïa et l’Afrique na Fondation Azzedine Alaïa

Escondida no coração do Marais, a Fondation Azzedine Alaïa é destino obrigatório para quem acompanha moda com atenção. Instalada no antigo ateliê do estilista tunisiano, a fundação preserva a atmosfera da maison onde Alaïa vivia e trabalhava. Além de abrir o estúdio à visitação, o espaço apresenta mostras curadas por Olivier Saillard, um dos historiadores de moda contemporânea mais respeitados. De 7 de julho de 2026 a 4 de janeiro de 2027, Alaïa et l’Afrique reconstrói o vínculo profundo entre o estilista e o continente africano por meio de vestidos, fotografias, esculturas e objetos de arte.

Peça de vestuário da mostra Alaïa et l'Afrique na Fondation Azzedine Alaïa
O legado africano na obra de Azzedine Alaïa, revisitado por Olivier Saillard.

6. Leandro Erlich no Grand Palais

O Grand Palais reserva um segundo compromisso para o verão. Além da monográfica dedicada a Hilma af Klint, o museu recebe até 6 de setembro de 2026 o universo invertido de Leandro Erlich. Conhecido por instalações como Swimming Pool e Bâtiment, o artista argentino transforma o edifício em um labirinto de ilusões ópticas e arquiteturas impossíveis, onde perspectivas em grande escala colocam a percepção de realidade constantemente em xeque.

Instalação Bâtiment de Leandro Erlich com fachada projetada no chão
Bâtiment, de Leandro Erlich, peça que consolidou o artista como mestre da ilusão arquitetônica.

7. Cité de l’Architecture et du Patrimoine

Um endereço pouco conhecido, mas que justifica o desvio. De frente para o Trocadéro, a Cité de l’Architecture et du Patrimoine guarda uma das coleções permanentes mais surpreendentes de Paris. O percurso atravessa mais de mil anos de arquitetura francesa: dos moldes monumentais de portais, fachadas e esculturas medievais até modelos da arquitetura contemporânea, passando pela reconstrução em escala real de um apartamento da Cité Radieuse, de Le Corbusier. Os pés-direitos altíssimos são um dos grandes atrativos do museu, que ainda oferece uma das vistas mais bonitas da cidade sobre a Torre Eiffel.

Galeria interna da Cité de l'Architecture com pé-direito alto e vista da Torre Eiffel
A Galerie Eiffel oferece uma das perspectivas mais privilegiadas sobre o monumento parisiense.

Entre o vapor de Nakaya, as espirais de Hilma af Klint e o vazio calculado de Calder, Paris confirma neste verão o que sempre soube: sua força não está apenas nas ruas ou no rio, mas na disciplina com que transforma cada sala em convite silencioso à atenção.

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