Nota editorial: publicada originalmente em 2022 e atualizada em setembro de 2026.
O Caribe mexicano tem duas faces. Uma é o mar turquesa que todo mundo conhece. A outra está embaixo do chão: os cenotes, poços de água doce abertos na rocha calcária que os maias chamavam de ts’ono’ot, o buraco na terra, e que tratavam como portas para o mundo subterrâneo.
A Península de Yucatán é, na prática, uma grande laje de calcário perfurada. Ao longo de milênios, a chuva se infiltrou pelas fendas, dissolveu a rocha e escavou cavernas e rios subterrâneos. Quando o teto dessas galerias cedeu, surgiram os cenotes. Nenhum é igual ao outro: há os abertos, como lagoas cercadas de mata; os semiabertos, em forma de vaso; e os de caverna, em que a luz entra por uma fresta e acende a água em azul.
O refúgio: um cenote dentro do hotel
Na faixa entre Playa del Carmen e Tulum, o UNICO 20°87° Hotel Riviera Maya, resort só para adultos, foi construído em torno de um cenote próprio. Atravessada a vegetação, a água azul contrasta com as paredes de rocha em tons de amarelo e laranja, e o hóspede escolhe o ritmo: descansar à beira, nadar, ou explorar as galerias com lanterna e capacete. O projeto do hotel mistura o rústico e o contemporâneo, com materiais naturais e peças artesanais da região, e a cozinha trabalha ingredientes locais.


O mergulho: regras que protegem a água
Nadar, fazer snorkel ou mergulhar num cenote exige cuidados que não são burocracia. A água desses poços é parte do mesmo aquífero que abastece a península, e qualquer resíduo se espalha. Por isso, a maioria dos cenotes de Quintana Roo proíbe protetor solar e cosméticos convencionais, exige ducha antes de entrar e, em muitos casos, o uso de colete salva-vidas, sobretudo nos mais profundos. Nos cenotes abertos ao público, chegar cedo, entre 8h e 10h, evita filas, e levar dinheiro em espécie ajuda, porque nem todos aceitam cartão. Mergulho em cavernas é atividade técnica e só deve ser feito com operadores certificados.

O trem: um sistema frágil sob pressão
A fragilidade desse mundo subterrâneo ganhou visibilidade com o Tren Maya. As obras do trecho 5, entre Cancún e Tulum, cravaram milhares de estacas de aço e concreto no solo cárstico, e ambientalistas documentaram cavernas e cenotes atingidos. Em outubro de 2025, a própria Secretaria de Meio Ambiente do México reconheceu danos em oito cavernas e um cenote, e anunciou trabalhos de limpeza e retirada de concreto. Para o viajante, o trem facilitou o acesso à região. Para quem se importa com os cenotes, reforçou a responsabilidade de visitá-los com cuidado.
O céu: cenotes, cidades e calendário
Para os maias, os cenotes eram fonte de água, lugar sagrado e, muitas vezes, a razão de uma cidade existir onde existe. Chichén Itzá cresceu ao redor de seus poços, incluindo o Cenote Sagrado. Ali, a pirâmide de Kukulkán, conhecida como El Castillo, foi alinhada com tamanha precisão que, nos equinócios de março e setembro, a sombra do sol desenha nas escadarias o corpo de uma serpente descendo em direção à base. É a prova mais famosa de uma civilização que media o tempo pelo céu e o encontrava refletido na água.
Ficha de serviço
UNICO 20°87° Hotel Riviera Maya
Kantenah, Riviera Maya, Quintana Roo, México, a cerca de 1h15 do aeroporto de Cancún
Resort só para adultos, com hospedagem em regime all-inclusive e cenote na propriedade. Site oficial: unicohotelrivieramaya.com.
O mar turquesa continua ali, na superfície, pronto para a fotografia. Mas a Riviera Maya guarda sua face mais antiga embaixo do chão, onde a luz entra por uma fresta e a água parece esperar, em silêncio, como esperava há mil anos.
Redação WAYFARER

